-
Mato Grosso do Sul se destaca entre os maiores produtores de cana-de-açúcar do Brasil e registrou, em 2025, uma produção estimada em 48 milhões de toneladas, segundo a Associação dos Produtores de Bioenergia do estado. Parte dessa produção abastece grandes usinas voltadas à fabricação de açúcar, etanol e bioenergia, enquanto outra pequena parcela mantém viva uma tradição histórica da agricultura familiar: a produção artesanal de rapadura. Em diversas regiões do interior sul-mato-grossense, famílias preservam métodos antigos de fabricação, utilizando engenhos movidos por força animal e equipamentos construídos manualmente. O processo mantém costumes transmitidos entre gerações e envolve a participação coletiva da família desde a moagem da cana até o preparo final do doce. O ritmo lento da produção exige paciência, atenção e experiência no manejo do engenho, especialmente quando são utilizados bois ou cavalos para movimentar a estrutura de madeira responsável pela extração do caldo da cana. Além de representar um patrimônio cultural, a atividade também se tornou uma importante fonte de renda complementar para pequenos produtores rurais.
A produção artesanal de rapadura continua presente em muitas propriedades familiares do estado, principalmente devido à valorização dos produtos tradicionais e ao fortalecimento da agricultura familiar. Dados apontam que cerca de 57% dos mais de 71 mil estabelecimentos rurais de Mato Grosso do Sul pertencem a agricultores familiares, setor que movimentou milhões de reais no último ano por meio de programas públicos de compra de alimentos. Nesse contexto, a rapadura deixou de ser apenas um produto ligado às tradições do campo e passou a representar também uma oportunidade econômica para diversas famílias. Especialistas destacam que produtos artesanais possuem valor agregado e atraem consumidores interessados em alimentos naturais e produzidos de maneira tradicional. Em muitas propriedades, crianças e jovens participam das atividades no engenho, aprendendo técnicas antigas e ajudando a preservar conhecimentos transmitidos entre diferentes gerações. Para os produtores, o envolvimento familiar fortalece os vínculos culturais e mantém viva uma prática que faz parte da identidade rural de várias comunidades do estado.
Embora muitos produtores ainda utilizem métodos tradicionais, algumas famílias têm adaptado os engenhos para facilitar o trabalho e modernizar parte da produção sem abandonar a essência artesanal da atividade. Em Dourados, por exemplo, um engenho familiar substituiu a força animal por um sistema adaptado com motor de motocicleta, tornando o processo mais rápido e eficiente. Mesmo com a introdução de novas soluções mecânicas, o preparo da rapadura continua exigindo várias horas de trabalho até que o doce esteja pronto para consumo. Produtores afirmam que a atividade proporciona satisfação pessoal e orgulho por manter uma tradição histórica em funcionamento. Além do aspecto econômico, a produção artesanal de rapadura também contribui para a preservação da cultura rural e para a valorização dos pequenos agricultores diante do crescimento do agronegócio industrial no país. Especialistas ressaltam que iniciativas como essas ajudam a manter práticas culturais regionais, estimulam a permanência das famílias no campo e reforçam a importância da agricultura familiar na economia e na preservação das tradições brasileiras.

