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Um estudo que analisou a inflação dos alimentos no Brasil desde 2006 confirmou uma percepção já presente no cotidiano de muitas famílias: o poder de compra da população diminuiu de forma significativa, principalmente na aquisição de frutas, verduras e legumes. Em estabelecimentos populares, como sacolões e hortifrutis, consumidores passaram a procurar alimentos vendidos com desconto, geralmente produtos maduros ou com pequenas avarias, para conseguir manter uma alimentação considerada mais saudável dentro do orçamento doméstico. A pesquisa revelou que a inflação dos alimentos subiu 63% acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nas últimas duas décadas. Entre os itens que registraram os maiores aumentos estão as frutas, com alta próxima de 180%, seguidas pelas carnes, que subiram cerca de 160%, além dos tubérculos, raízes e legumes, que tiveram elevação de aproximadamente 93%. Como consequência, o valor do dinheiro destinado às compras diminuiu drasticamente. Segundo o levantamento, cem reais de vinte anos atrás equivaleriam atualmente a cerca de trinta e cinco reais em poder geral de compra. No entanto, quando analisado especificamente o setor alimentício, o mesmo valor permitiria adquirir quantidades muito menores de alimentos essenciais, especialmente produtos frescos e naturais.
A pesquisa também mostrou que a perda de poder aquisitivo afetou diretamente o padrão alimentar da população brasileira. Enquanto frutas e hortaliças ficaram menos acessíveis, produtos industrializados e ultraprocessados passaram a ocupar mais espaço na alimentação diária devido ao custo relativamente menor. O estudo apontou que um salário mínimo perdeu aproximadamente 30% da capacidade de compra de frutas e verduras ao longo dos anos. Em contrapartida, houve aumento no consumo de refrigerantes e alimentos embutidos, como presunto, cujos índices de acesso cresceram significativamente no período analisado. Especialistas afirmam que essa mudança foi impulsionada não apenas pela inflação, mas também pela transformação da produção agrícola nacional. Com a consolidação do Brasil como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, houve uma reorganização do uso das terras agrícolas, priorizando culturas destinadas ao mercado externo. Como resultado, a produção per capita de frutas caiu cerca de 14% em relação ao que era registrado duas décadas atrás. Dessa forma, parte da produção voltada tradicionalmente para abastecer a mesa dos brasileiros perdeu espaço para produtos agrícolas mais lucrativos destinados à exportação.
Os impactos dessa realidade econômica são percebidos diretamente no cotidiano das famílias e de pequenos comerciantes. Em bairros periféricos, cozinheiras e trabalhadores do setor alimentício relatam dificuldades para manter receitas feitas com ingredientes naturais devido ao aumento constante dos preços. Produtos básicos, como tomate e batata, tiveram elevações tão expressivas que preparações simples passaram a ser consideradas artigos de luxo dentro do orçamento doméstico. Muitos consumidores passaram a reduzir a frequência do consumo de alimentos frescos ou substituir ingredientes naturais por opções industrializadas mais baratas. Pequenos empreendedores do ramo alimentício também enfrentam dificuldades para equilibrar os custos sem comprometer a qualidade dos produtos oferecidos aos clientes. Especialistas defendem que, embora as exportações agrícolas sejam importantes para a economia brasileira, também é necessário fortalecer políticas que ampliem o acesso da população a alimentos saudáveis e variados. O estudo conclui que a redução do poder de compra dos brasileiros não afeta apenas a economia familiar, mas também interfere diretamente na qualidade da alimentação e nas condições de saúde da população ao longo do tempo.

