-
Indígenas de diferentes etnias intensificaram manifestações no oeste do estado do Pará contra um decreto federal que prevê a concessão à iniciativa privada de serviços relacionados à navegabilidade em rios da Amazônia. O movimento reúne cerca de 1.200 participantes e ocorre em meio à preocupação com possíveis impactos ambientais e sociais decorrentes da proposta. O rio Tapajós, um dos principais focos do projeto, já desempenha papel relevante no transporte de grãos, tendo registrado, no ano anterior, uma média de aproximadamente 50 mil toneladas transportadas por dia. A medida em análise pelo governo inclui a possibilidade de dragagem do leito do rio para viabilizar a circulação de embarcações de maior porte, o que tem gerado resistência entre comunidades tradicionais.
Há cerca de um mês, representantes de 16 etnias mantêm protestos contínuos contra a iniciativa, incluindo a ocupação de uma área pertencente a uma empresa multinacional do setor de grãos, localizada no município de Santarém. Entre as ações realizadas, destaca-se a interceptação de uma embarcação no rio Tapajós como forma de chamar atenção para a causa. Lideranças indígenas relatam preocupação com os efeitos acumulados de intervenções ambientais, especialmente após eventos recentes, como a seca extrema registrada em 2024, que resultou na redução de níveis de rios menores, morte de peixes e impactos nos ecossistemas locais. Segundo essas comunidades, a realização de dragagens pode agravar ainda mais a situação, afetando diretamente os modos de vida e a segurança alimentar das populações ribeirinhas.
Especialistas apontam que a dragagem pode intensificar problemas já existentes, como a contaminação por mercúrio associada ao garimpo ilegal, ao remexer sedimentos e liberar metais pesados acumulados no leito dos rios. Além disso, há risco de prejuízos à fotossíntese de organismos aquáticos, comprometendo a cadeia alimentar e o equilíbrio ecológico. O projeto do governo contempla a implantação de hidrovias nos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, com o objetivo de ampliar o escoamento de grãos e outras cargas pela região conhecida como Arco Norte. Setores produtivos defendem que a medida pode reduzir custos logísticos e impulsionar o desenvolvimento econômico. Em contrapartida, o governo federal informou que qualquer decisão dependerá do cumprimento de exigências legais, ambientais e sociais, incluindo a realização de consultas às comunidades indígenas potencialmente afetadas.

