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Os impactos econômicos decorrentes do conflito no Oriente Médio ultrapassam a elevação dos preços dos combustíveis, atingindo diretamente o comércio exterior brasileiro, especialmente o setor agropecuário. Diante do cenário de instabilidade, exportadores nacionais passaram a buscar rotas alternativas para o envio de mercadorias à região, além de negociar com novos compradores em outros mercados. Entidades representativas de agricultores e pecuaristas acompanham atentamente o desenrolar das ações militares envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, uma vez que parcela significativa das exportações brasileiras depende desses destinos. Atualmente, cerca de 23% do milho exportado pelo Brasil tem como destino o Irã, enquanto aproximadamente 30% da carne de frango é direcionada ao Oriente Médio. Como o transporte marítimo desses produtos pode levar até 40 dias, muitas cargas já estavam em trânsito no momento do agravamento do conflito, aumentando os riscos logísticos e comerciais. Nesse contexto, o custo dos seguros de transporte sofreu forte elevação, chegando a quadruplicar, o que pressiona ainda mais os exportadores. Parte deles já iniciou o redirecionamento de cargas e ajustes na produção, adaptando-se a novos mercados consumidores.
Apesar dos desafios, o Brasil possui uma ampla rede de comércio internacional, exportando para mais de 160 países, o que confere certa flexibilidade para redirecionar suas vendas. No entanto, no sentido inverso, ou seja, nas importações, a preocupação se concentra principalmente na aquisição de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola. O país depende de importações para cerca de 85% dos fertilizantes utilizados internamente. Embora tenha ocorrido uma diversificação de fornecedores nos últimos anos, uma parcela relevante da ureia — um dos principais fertilizantes nitrogenados — ainda é proveniente do Oriente Médio. O bloqueio do Estreito de Hormuz surge como um fator crítico, dificultando o fluxo desse produto estratégico. Atualmente, cerca de 18% da ureia importada pelo Brasil tem origem no Irã e em Omã. Como consequência direta, os custos para os produtores rurais já registraram aumento aproximado de 35%. Especialistas do setor destacam que produtores de grãos, como milho e soja, já haviam adquirido fertilizantes antecipadamente para a próxima safra, prevista para o segundo semestre, reduzindo impactos imediatos para esse grupo. Por outro lado, produtores de frutas, legumes e hortaliças, que costumam comprar insumos de forma mais imediata, já enfrentam aumento significativo nos custos de produção.
A situação atual apresenta semelhanças com os efeitos observados durante o conflito entre Rússia e Ucrânia, quando também houve dificuldades no fornecimento global de fertilizantes. Naquela ocasião, o Brasil conseguiu contornar parcialmente a crise ao recorrer a outros fornecedores internacionais. Contudo, havia um fator favorável: os preços das commodities agrícolas estavam elevados, garantindo maior capacidade financeira aos produtores para absorver custos mais altos. No cenário atual, essa condição não se repete. Muitas culturas agrícolas enfrentam preços baixos no mercado, o que reduz a margem de lucro dos produtores. Além disso, o setor agropecuário brasileiro acumula um nível elevado de endividamento, considerado um dos mais altos dos últimos anos. Esse conjunto de fatores intensifica a preocupação entre os agentes do setor, uma vez que a elevação dos custos de produção, combinada com receitas reduzidas, compromete a sustentabilidade econômica das atividades agrícolas no curto e médio prazo.

