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No litoral sul do Brasil, uma tradição centenária envolvendo pescadores artesanais e botos passou a ser oficialmente reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. O certificado de reconhecimento será entregue pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, reforçando a importância histórica, cultural e ambiental dessa prática rara no mundo. A chamada pesca cooperativa ocorre principalmente no encontro do rio Tramandaí com o mar, no litoral norte do Rio Grande do Sul, onde pescadores utilizam sinais feitos pelos botos para identificar o momento exato de lançar as tarrafas e capturar tainhas. Os animais ajudam os pescadores ao indicar a presença dos cardumes por meio de movimentos específicos, como saltos, mergulhos e batidas com o focinho na água. Em troca, também se alimentam dos peixes que escapam das redes ou permanecem próximos da área de pesca. Essa interação é considerada uma parceria natural construída ao longo de mais de cem anos, baseada em comunicação, observação e convivência constante entre seres humanos e animais marinhos.
A tradição é transmitida de geração em geração tanto entre as famílias de pescadores quanto entre os próprios botos. Pesquisadores explicam que os filhotes aprendem o comportamento observando as mães durante as pescarias realizadas em conjunto com os trabalhadores das comunidades locais. Os pescadores também colaboram nesse processo ao responderem aos sinais feitos pelos animais mais jovens, lançando as redes mesmo quando ainda não há peixes suficientes, como forma de ensinar o significado da interação. Atualmente, cerca de 14 golfinhos da espécie conhecida popularmente como boto participam dessa prática em Tramandaí, sendo identificados individualmente pelos moradores e pesquisadores, inclusive com nomes próprios. Entre eles estão Geraldona, considerada a matriarca do grupo, além de outros animais conhecidos como Rubinha, Ligeirinho e Esperança. A pesca cooperativa também ocorre na Barra do Rio Araranguá, em Santa Catarina, onde os botos retornaram recentemente após mais de duas décadas afastados da região, fato comemorado pelos pescadores locais como um importante sinal de preservação ambiental e continuidade cultural.
O reconhecimento da pesca cooperativa como patrimônio cultural brasileiro representa uma valorização dos saberes tradicionais preservados pelas comunidades pesqueiras do Sul do país. Especialistas afirmam que a prática faz parte do chamado mosaico cultural brasileiro, reunindo elementos históricos, ambientais e sociais fundamentais para a identidade dessas populações. Além de fortalecer a preservação cultural, o reconhecimento também contribui para ampliar debates sobre conservação ambiental e proteção dos habitats naturais utilizados pelos botos e pelas comunidades pesqueiras. Muitos pescadores relatam que cresceram acompanhando pais e avós nessa atividade e consideram os animais parte da própria família e da história local. A convivência diária criou uma relação de respeito mútuo entre homens e botos, tornando essa parceria um exemplo raro de cooperação entre espécies na natureza. Para as comunidades envolvidas, o reconhecimento oficial simboliza a realização de uma luta antiga pela valorização de um conhecimento tradicional que resistiu ao tempo e continua sendo transmitido às novas gerações como parte importante da cultura brasileira.

